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11/11/2025

Rubricas de um roteiro mal vivido

Eu aceito você não me amar de volta, é claro, mas negar o amor que há nove anos me lacera é de uma canalhice indizível.

Sorvo a vista da varanda de andar alto de um apartamento indiferente em um país inóspito, na inconformação costumeira, buscando inalar qualquer paz do ar com o trânsito da avenida mais movimentada do mundo às seis da tarde logo abaixo de mim me sacudindo pras urgências.

Mas não é isso o que me tira o sossego. Minha urgência é o rasgado de Brent Smith em “Just a junkyard Romeo fallin’ down like he always does”, que me compele a transubstanciar os fantasmas na minha conversão mais nociva. Então deixo a meia-luz de uma vela de aromas exóticos me transformar em silhueta de mim mesmo e travo a música em um replay indefinido. Talvez seja a necessidade de me sentir, me saber em fôlego e pulso, e, pra pessoas feitas do que somos, isso nunca é possível sem uma sangradinha.

Só que aquela necessária sangradinha – pras complexidades da vida serem mais bem apreciadas em suas sutilezas – quando é você, é sempre exsudação – de uma fenda impossivelmente cicatrizável.

Então sou um pouco Sísifo e um pouco Prometeu, condenado a esse eterno retorno pela maior rebeldia existencial já concebida – te escolher.

Acontece que em algum momento a gente precisa sair da encruzilhada e traçar um caminho: o mais óbvio, o da conformação e das relações porque é assim que deve ser, ou bancar o bardo que somos. E no meu caso não foi tanto opção, foi compulsório aceitar o meu lado, também, bad at love. E disso faz parte você, como não?, resposta tão óbvia.

Então você vira o rosto, porque discorda em partes, das partes em que digo que é você, que sempre foi você, em particular, e que talvez, de alguma forma misteriosa e agnóstico-inacessível, eu já te ame há bem mais tempo e espaço do que esses nove anos são capazes de comportar.

Mas como essa escolha poderia ser a projeção fantasiosa de que sempre me acusou se eu sempre te vi?

Você acha mesmo que em algum universo seria possível eu errar alguma coisa sobre você? Seja nas qualidades, seja nos defeitos. Seja no processo, aliás – já que você nunca foi, está sendo.

Por quê?, seus olhos de vírgula se apertam em reticências e me questionam.
Porque você permitiu.

(Ergue a sobrancelha – só uma. Mas não como sua sedução canastrona de sempre, é involuntário.)

A mente é uma eterna caixa-preta e qualquer pretenso terapeuta que julgue diferente não faz a não ser ter síndrome de Deus, algo que de mim sempre passou longe. Não à toa – meus colegas da análise se retorcem – a única terapia que esse título merece é behaviorista. E essa ladainha teórica toda é só pra dizer que não há leitor de gente capaz de ler sem permissão – até um polígrafo precisa dela, e você sabe o quanto você não permite e se mura.

(Abre o sorriso, mas é puro “instinto e instante”, então o fecha de volta quando o percebe. Os muros não podem ir embora, não é mesmo?)

Pois é, você se-me entregou.*

Não é poder, não é um dom, não é místico, não é código Grabovoi desvelando leis ocultas do universo em seus patifes esquemas de pirâmide. É troca – ou simbiose, já que somos em igual medida paranoicos-problemáticos, e isso aqui combina mais e melhor.

Não, nunca fui eu, caso isolado, tão poderoso do alto da minha junkyard clarividência, e é isso o que você está há exatos nove anos – amanhã, 5/11 – negando para si mesma, Elizabeth.

Nunca fui eu, porque esse não é um tipo de coisa possível de se fazer sozinho.

Foi você.
Fomos…
Fomos.

#

Storybook lovers read between the lines, runnin’ on excuses, runnin’ out of time.

*Straight into the deep end, knowin’ you can’t swim.
#Perfectividade questionável.

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Carolina Palha

Carolina Palha

Editora, mestre em psicanálise das perversões sexuais e afeita à bagaceira. Nunca soube escolher entre praia, dança e Coca-Cola.