Revirando as cobertas, o pensamento rasgando mais que os quatro graus da cidade.
Digito e apago repetidas vezes a mesma mensagem: não consigo dormir pensando em você.
Penso na conversa que me queima o peito mas da qual já não me permito mais extrair expectativa – caminho que aprendi a seguir, automático.
Mas pensar na possibilidade de nós dois é inevitável nessas situações. Não se fecha de uma hora pra outra uma fonte que até então represada se escancarou.
Busco, nesse momento de pico, todos os métodos do dia a dia de te tirar de mim.
Foram sete meses de isolamento total no ano passado, então eu saí com um cara. Poderia culpar o signo, mas eu sei bem que não foi isso. Opiniões, conversas e meu desejo de compartilhar qualquer etéreo com você. Antes daquele intervalo de sete meses, era nas suas mãos em que eu estava. Afastei o pensamento que voou para você, como em tantas vezes, e me coloquei no presente.
Houve outras várias, tantas que mal me lembro para enumerar. Mas houve uma recente, da qual nem te falei.
Bar-balada com amigos, dessas noites em que tudo o que importa é vencer a finitude convencendo o garçom, horário estreitando, a trazer mais um balde de cerveja.
O sorriso desconcertado que um homem na mesa esboça me traz você. Não é semelhança exatamente, até porque nem precisaria. É muito mais a minha necessidade de te transubstanciar no meu cotidiano à mínima possibilidade.
Afasto o pensamento, é claro. Há tempos não me questiono com o inocente “por que isso do nada”, aceitei a presença e sei bem que é impossível lutar contra o que é, ou se tornou, constitutivo.
Afasto o pensamento como quem tira a poeira dos móveis. É fácil, não se precisa esforço. Mas logo volta, está ali, como se nunca tivesse sido removido um grão sequer.
E há os dias, sempre há, em que se distrai dessas tarefas, e ela se acumula, reconfigurando a decoração.
Há coisas outras a ver, a fazer. Não muda o fato de que ela está ali.
Passaram-se tantas vidas, aí e aqui, tanto, para cada um de nós, tão alheio ao outro. E, no entanto, o que tirou a insistência da possibilidade?
A gente pode – e vai, você principalmente – continuar maquiando e arrumando explicações lógicas. Elas são boas, todas elas. Válidas, até, em certa medida. Mas mesmo elas são incapazes de nos extirpar um do outro.
E, embora criemos desculpas e barreiras, é justamente essa a única e inextinguível impossibilidade de nós dois.